Erasmo de Roterdã e a crítica à falsa reforma: continuidade, tradição e ruptura na Epistola contra quosdam pseudevangelicos (1529)

Introdução

Erasmo de Roterdã (1466–1536) ocupa uma posição singular no cenário intelectual do século XVI. Sacerdote católico, humanista cristão e crítico severo dos abusos e corrupções eclesiásticas de seu tempo, recusou-se, contudo, a aderir ao movimento reformista protestante. Sua postura intermediária — frequentemente incompreendida — não derivava de ambiguidade doutrinal, mas de uma convicção firme: a de que a verdadeira reforma da Igreja não poderia ser alcançada por meio da ruptura com sua tradição histórica e litúrgica.

A Epistola contra quosdam pseudevangelicos, escrita em 1529, constitui uma das mais claras e contundentes expressões dessa posição. Nela, Erasmo responde às pretensões dos reformadores de estarem restaurando o Evangelho supostamente perdido durante séculos de história eclesial. O texto revela uma crítica que ultrapassa seu contexto imediato, oferecendo categorias analíticas relevantes para a compreensão de processos reformistas marcados pela negação da continuidade.

A negação da continuidade histórica como fundamento da falsa reforma

Um dos alvos centrais da crítica erasmiana é a tese segundo a qual a Igreja teria permanecido por mais de mil anos afastada da verdade evangélica. Para Erasmo, tal afirmação implica consequências teológicas insustentáveis: a ausência da assistência divina à Igreja, a falência da tradição patrística e conciliar e a negação da santidade histórica da comunidade eclesial.

Ao ironizar a dificuldade da tarefa assumida pelos reformadores — mais árdua, segundo ele, do que a dos próprios apóstolos — Erasmo evidencia o caráter desproporcional e presunçoso dessa pretensão. A reforma, quando fundada na ruptura com a totalidade da experiência histórica da Igreja, deixa de ser correção para tornar-se substituição.

A crítica à iconoclastia e ao desprezo pelos ritos

Outro eixo fundamental da Epistola é a crítica à iconoclastia e à rejeição sistemática das cerimônias litúrgicas. Erasmo observa que a destruição de imagens e a supressão de ritos são apresentadas como sinais de purificação espiritual, quando, na realidade, não produzem aumento correspondente de vida interior.

Sua análise distingue claramente entre o uso legítimo de sinais visíveis e os abusos que podem corrompê-los. A eliminação indiscriminada dos ritos, longe de promover uma fé mais autêntica, conduz à perda de mediações pedagógicas que historicamente moldaram a espiritualidade cristã. Para Erasmo, o problema não reside na existência das cerimônias, mas na ausência de conversão interior — ausência esta que a iconoclastia não corrige.

Reforma moral versus reforma estrutural

Erasmo insiste na primazia da reforma moral e espiritual sobre a reforma meramente externa ou estrutural. A crítica aos “falsos evangélicos” enfatiza que a destruição de práticas tradicionais não foi acompanhada por um crescimento proporcional em virtudes cristãs. Ao contrário, segundo o humanista, observava-se o fortalecimento de vícios como a soberba espiritual, o sectarismo e a intolerância.

Essa distinção permite compreender sua oposição a reformas apressadas, impostas de modo uniforme e desvinculadas do discernimento histórico. A verdadeira reforma, para Erasmo, é orgânica, gradual e respeitosa daquilo que foi transmitido ao longo dos séculos.

A crítica à pressa revolucionária

Um aspecto recorrente no texto de 1529 é a rejeição da urgência revolucionária dos reformadores. Erasmo questiona a legitimidade de exigir que comunidades inteiras abandonem, em poucos anos, práticas e doutrinas recebidas de gerações anteriores, em favor de interpretações recentes e ainda instáveis.

Tal pressa revela, segundo ele, uma concepção inadequada da verdade cristã, que não depende de imposição imediata, mas se confirma pelo tempo, pela recepção e pela fecundidade espiritual. A tradição, longe de ser um obstáculo, funciona como critério de discernimento contra inovações destrutivas.

Considerações finais: quando 1529 julga 1969

A leitura da Epistola contra quosdam pseudevangelicos torna impossível ignorar um dado perturbador: a lógica denunciada por Erasmo em 1529 reaparece, quase intacta, nos debates litúrgicos e eclesiológicos do período pós-conciliar. Não se trata de mera analogia retórica, mas de identidade estrutural de argumentos, atitudes e pressupostos.

Também no século XX se afirmou, explícita ou implicitamente, que a Igreja precisava ser “libertada” de camadas históricas acumuladas; que a liturgia tradicional obscurecia o Evangelho; que séculos de prática ritual haviam produzido alienação em vez de fé; e que uma reforma rápida, ampla e irreversível era não apenas desejável, mas moralmente urgente. O que em Lutero e seus seguidores aparecia como ruptura confessional, em 1969 assumiu a forma de uma ruptura interna, legitimada por linguagem pastoral e técnica, mas animada pelo mesmo desprezo pela tradição recebida.

Erasmo antecipa o erro central dessa mentalidade: a convicção de que a Igreja pode ser reinventada sem custo espiritual. Ao denunciar reformadores que “pisoteiam a cerimônia, mas nada acrescentam à espiritualidade”, ele oferece um critério empírico que permanece válido: quando a reforma litúrgica resulta em empobrecimento do sagrado, colapso da disciplina ritual e erosão da fé objetiva, ela falhou em sua própria promessa.

A crítica erasmiana também ilumina o caráter ideológico da iconoclastia moderna. A remoção sistemática de símbolos, a simplificação agressiva dos ritos e a hostilidade à linguagem sacral não produziram maior interioridade, mas abriram espaço para o subjetivismo, o experimentalismo e a banalização do culto. Tal como no século XVI, a destruição do visível foi apresentada como caminho para o espiritual; e, tal como Erasmo previra, o resultado foi a diminuição da reverência e da consciência do mistério.

Por fim, a advertência mais grave permanece a mesma: toda reforma que pressupõe uma Igreja errada por séculos termina por negar, na prática, a assistência de Cristo à sua própria Esposa. A noção de que a liturgia tradicional seria um desvio prolongado — tolerado até ser finalmente corrigido por especialistas modernos — reproduz exatamente o erro teológico que Erasmo identificou como fatal nos “falsos evangélicos”.

A atualidade de Erasmo reside, portanto, em sua recusa tanto do imobilismo quanto da revolução. Ele recorda que a reforma autêntica é sempre interna antes de ser externa, moral antes de ser estrutural, orgânica antes de ser programática. Quando a tradição é tratada como obstáculo e não como herança viva, a reforma deixa de ser católica e passa a ser ideológica.

Cinco séculos depois, a pergunta de Erasmo continua ecoando — agora dirigida não a Wittenberg, mas a Roma e ao mundo católico contemporâneo: queremos purificar a liturgia… ou substituí-la?

A história já respondeu o preço dessa escolha.


Por Ir. Alan Lucas de Lima, OTC
Carmelita Secular da Antiga Observância