Se a negação de Pedro não derrubou o papado, por que cairia hoje?
Introdução
A crise contemporânea em torno do
papado tem produzido respostas apressadas, muitas delas movidas mais por
indignação moral do que por teologia sólida. Entre essas respostas, o
sedevacantismo se destaca por sua conclusão extrema: a de que a Sé Apostólica
estaria vacante há décadas em razão dos erros, ambiguidades ou escândalos
atribuídos aos papas recentes. Essa posição, embora se apresente como zelosa da
Tradição, falha justamente onde afirma ser mais fiel: na compreensão do que é o
papado segundo a fé católica.
A Tradição da Igreja nunca
identificou a validade do ofício petrino com a perfeição moral, prudencial ou
mesmo doutrinal do papa concreto em todos os seus atos. Ao contrário, desde o
Evangelho, o papado se apresenta como um mistério sustentado pela promessa de
Cristo, não pela virtude irrepreensível de seus portadores. É nesse ponto que a
figura de São Pedro se torna decisiva e incontornável.
A negação de Cristo por Pedro não
é um detalhe embaraçoso da narrativa evangélica, mas um dado teológico central
(cf. Mt 26,69–75; Mc 14,66–72; Lc 22,54–62; Jo 18,15–27). Ela revela a natureza
realista da Igreja fundada por Cristo: uma Igreja edificada sobre homens
frágeis, sustentada não pela impecabilidade humana, mas pela fidelidade divina.
Ignorar esse dado é reconstruir o papado segundo categorias estranhas à fé
católica.
Este artigo propõe uma análise
sistemática desse problema, partindo do dado evangélico fundamental — a queda
de Pedro — para examinar o erro estrutural do sedevacantismo, esclarecer a
distinção essencial entre pessoa e ofício no papado, e aplicar essas conclusões
ao presente, sem recorrer a polêmicas nominais. Ao final, ficará claro que a
Tradição não é purismo moral nem idealismo eclesiológico, mas realismo
sobrenatural.
1. São Pedro: o dado que ninguém consegue apagar
O Evangelho apresenta São Pedro
como escolhido diretamente por Cristo para ocupar uma função singular entre os
Apóstolos (cf. Mt 16,18–19; Lc 22,31–32; Jo 21,15–17). A ele são confiadas as
chaves do Reino, e sobre ele Cristo declara edificar a sua Igreja. Essa eleição
não é genérica nem simbólica: trata-se de um encargo real, visível e histórico,
que funda o primado petrino.
No entanto, o mesmo Pedro que
recebe as chaves é aquele que, diante da ameaça, nega conhecer o seu Mestre.
Não se trata de uma falha menor ou privada. A negação é pública, reiterada e
ocorre no momento mais decisivo da história da salvação. Do ponto de vista
moral, é uma queda grave e inequívoca.
Apesar disso, não há no Evangelho
qualquer indicação de que Cristo tenha revogado o primado de Pedro após a
Ressurreição (cf. Jo 21,15–17). Pelo contrário, o Cristo ressuscitado confirma
a missão de Pedro, encarregando-o de apascentar o rebanho. A lógica é clara: a
infidelidade pessoal de Pedro não anula o ofício que lhe foi confiado.
Esse dado evangélico estabelece
um princípio fundamental para toda a eclesiologia católica: o papado não
depende da impecabilidade do papa (cf. Lc 22,32). A promessa de Cristo recai
sobre o ofício, não sobre a performance moral constante do seu portador.
Confundir essas duas coisas é abandonar o realismo bíblico.
Portanto, qualquer teoria que
faça a subsistência do papado depender da retidão pessoal ou da clareza
absoluta de cada ato do papa entra em contradição direta com o dado fundacional
do cristianismo. São Pedro permanece como pedra, mesmo tendo tropeçado gravemente.
2. O erro sedevacantista exposto sem caricatura
O sedevacantismo parte de uma
preocupação legítima: a preservação da fé católica diante de confusões e
desvios reais no exercício do ministério petrino ao longo da história recente.
No entanto, a legitimidade da preocupação não garante a correção da conclusão.
O erro fundamental do
sedevacantismo consiste em identificar o papado com um ideal de ortodoxia
perfeita e constante em todos os atos do papa. Quando esse ideal não é
atingido, conclui-se que o ocupante da Sé não pode ser papa. Trata-se de um
critério estranho à Tradição.
Historicamente, a Igreja conviveu
com papas fracos, imprudentes, politicamente comprometidos e até
doutrinariamente problemáticos. Ainda assim, nunca ensinou que tais defeitos
anulassem automaticamente o ofício petrino. A história do papado é marcada por
crises, não por uma linha contínua de excelência pessoal.
Além disso, o sedevacantismo
projeta sobre o papado uma expectativa que Cristo não projetou nem sobre Pedro.
Exige-se dos sucessores de Pedro aquilo que o próprio Pedro não realizou em
momento crucial. Isso revela uma inversão teológica: o critério deixa de ser a
promessa de Cristo e passa a ser a avaliação humana.
Sem recorrer a caricaturas, é
preciso afirmar com clareza: o sedevacantismo não falha por ser rigoroso
demais, mas por ser teologicamente inadequado. Ele substitui a eclesiologia
católica por um modelo implícito de Igreja purista e idealizada, incompatível
com a Revelação.
3. Pessoa e ofício: uma distinção essencial e bíblica
A distinção entre a pessoa do
papa e o ofício que ele ocupa não é uma invenção tardia nem uma estratégia
apologética moderna (cf. Mt 16,18–19 em contraste com Mt 16,23). Ela está
presente na própria estrutura da Revelação e da Tradição.
No caso de Pedro, essa distinção
é evidente. O homem Pedro erra, teme, cai e se arrepende. O ofício petrino,
contudo, permanece como princípio de unidade visível da Igreja. A promessa de
Cristo não se dissolve com a fraqueza do seu portador.
Essa distinção não separa a
instituição da pessoa de maneira artificial, mas reconhece que o ofício possui
uma finalidade objetiva que transcende as qualidades subjetivas de quem o
exerce. O papa não cria o papado; ele o recebe.
Confundir pessoa e ofício leva a
dois extremos igualmente problemáticos: ou à idolatria do papa, como se tudo o
que ele dissesse fosse automaticamente irreformável, ou à rejeição do papado
quando o papa decepciona expectativas humanas. Ambos os extremos são estranhos
à Tradição.
A fé católica sempre caminhou
entre esses dois erros, afirmando simultaneamente a autoridade real do papado e
a falibilidade pessoal de seus ocupantes fora das condições estritas da
infalibilidade definida.
4. Aplicação ao presente: sem nomes, com princípios
Aplicar esses princípios ao
presente não exige polêmica nominal, mas fidelidade à lógica teológica. Se a
negação explícita de Cristo por Pedro não anulou o papado, é insustentável
afirmar que ambiguidades, erros prudenciais ou até desvios doutrinais não definitivos
anulem automaticamente o ofício petrino.
A submissão exigida pela fé
católica ao Romano Pontífice é formalmente dirigida ao ofício, não a cada ato
contingente do seu exercício (cf. Mt 23,2–3; At 15,7). Isso não implica
obediência cega nem suspensão do juízo teológico, mas reconhecimento da estrutura
querida por Cristo.
A história da Igreja mostra que a
correção de papas ocorreu dentro da Igreja, não pela negação do papado. Santos,
teólogos e concílios lidaram com crises sem jamais concluir que a Sé estivesse
vacante por falhas do pontífice.
Negar o papado como reação a seus
abusos equivale a destruir o remédio por causa dos efeitos colaterais. É uma
resposta emocional, não teológica.
O caminho tradicional é mais
exigente: permanecer na Igreja, sustentar a fé recebida e reconhecer que a
promessa de Cristo não falha, mesmo quando seus ministros falham.
Conclusão: tradição não é purismo
A Tradição católica não é uma
utopia moral nem um idealismo institucional. Ela é profundamente realista,
porque nasce da Encarnação. Deus age por meio de instrumentos humanos, frágeis
e históricos.
O papado não é garantido pela
santidade pessoal do papa, mas pela fidelidade de Cristo à sua promessa. Essa
fidelidade não depende da aprovação humana nem da coerência psicológica de cada
geração.
Rejeitar o papado ferido é, em
última instância, rejeitar o papado real, aquele instituído por Cristo. É
preferir uma Igreja imaginária a uma Igreja concreta.
A figura de Pedro permanece como
advertência e consolo: advertência contra a idolatria do homem, consolo contra
o desespero diante da fraqueza humana.
Quem compreende isso entende que
a Tradição não exige papas impecáveis, mas fé firme na promessa daquele que
disse que as portas do inferno não prevaleceriam.
Referências bibliográficas
Sagrada Escritura
- Evangelho
segundo São Mateus: 16,18–19; 26,69–75
- Evangelho
segundo São Marcos: 14,66–72
- Evangelho
segundo São Lucas: 22,31–32; 22,54–62
- Evangelho
segundo São João: 18,15–27; 21,15–17
Magistério da Igreja
- BONIFÁCIO
VIII. Unam Sanctam.
- CONCÍLIO
DE FLORENÇA. Laetentur Caeli.
- CONCÍLIO
VATICANO I. Pastor Aeternus.
Teologia e Eclesiologia
- AQUINO,
Tomás de. Summa Theologiae.
- BELARMINO,
Roberto. De Romano Pontifice.
- JOURNET,
Charles. A Igreja do Verbo Encarnado.
- CONGAR, Yves. Tradição e Tradições.