O Futuro da Liturgia: Sob o Pontificado de Leão XIV

Papa Leão XIV celebra sua 1ª Missa de Natal — Foto: Guglielmo Mangiapane/Reuters

Introdução

A história da Igreja é marcada por ciclos: tempos de expansão e retração, de ousadia e de prudência, de conflito e de reconciliação. A questão litúrgica, aberta com a Missa Normativa de 1967, atravessou pontificados sucessivos, sempre deixando feridas e esperanças. Mas o futuro continua aberto.

O Cardeal Robert Francis Prevost, OSA, eleito Papa, assume o nome de Leão XIV, evocando deliberadamente a força doutrinal de Leão XIII e a coragem pastoral de Leão Magno. O nome não é neutro nem decorativo: é um manifesto. Leão XIV se apresenta como quem pretende fazer a Igreja rugir novamente em meio às confusões do mundo, reafirmando autoridade, continuidade e consciência histórica num tempo marcado pela ambiguidade.

Leão XIV herdaria um cenário de tensões profundas. O Traditionis Custodes de Francisco reduziu o espaço da liturgia tradicional, mas não conseguiu extingui-la. Bento XVI havia mostrado que ela podia florescer e alimentar a fé. O dilema estaria, pois, diante dele: restringir ainda mais, manter o status quo ou buscar uma reconciliação renovada.

O futuro da liturgia sob Leão XIV dependeria de sua capacidade de discernir os sinais dos tempos. Ele teria que enfrentar não apenas uma questão interna, mas um fenômeno global: o retorno dos jovens à missa tradicional, a sede de transcendência em um mundo secularizado e a divisão que ameaça a comunhão eclesial.

Diante disso, podemos projetar quatro caminhos possíveis, quatro linhas de ação que um Papa Leão XIV poderia assumir: a reconciliação litúrgica, o fortalecimento do rito romano reformado, a integração da tradição no presente e a renovação missionária a partir da liturgia.

1. Reconciliação Litúrgica

Leão XIV poderia optar por um caminho inspirado na visão de Bento XVI: a liturgia como lugar de reconciliação. Nesse cenário, ele resgataria o espírito do Summorum Pontificum, reconhecendo oficialmente que a Missa tridentina é parte viva do rito romano e que sua supressão seria uma amputação da própria Igreja.

Isso implicaria em restaurar a liberdade ampla de celebração da Missa de 1962, permitindo que padres e comunidades tenham acesso sem necessidade de permissões excepcionais. A lógica não seria de concessão, mas de direito. Afinal, a lex orandi da Igreja não pode ser reduzida a uma só expressão.

Esse gesto teria força pastoral. Ele desarmaria tensões, aproximaria grupos tradicionais e poderia até criar pontes mais sólidas com a Fraternidade São Pio X. Mostrar-se-ia que a Igreja não teme sua tradição, mas a assume como patrimônio.

O risco, claro, seria enfrentar resistência entre bispos que veem no rito antigo uma ameaça à unidade. Mas, se Leão XIV tivesse coragem de ensinar que a verdadeira unidade não é uniformidade, esse obstáculo poderia ser superado.

Essa reconciliação litúrgica não seria retrocesso, mas maturidade: reconhecer que o futuro da Igreja não pode ser construído contra o seu passado.

2. Fortalecimento do Rito Romano Reformado

Outra possibilidade é que Leão XIV opte por fortalecer o Novus Ordo, não como exclusão da tradição, mas como elevação de sua dignidade. Isso significaria uma reforma da reforma, retomando o que muitos teólogos já pediam desde Bento XVI.

O objetivo seria dar ao rito de Paulo VI uma expressão mais solene, sacral e clara de sua continuidade com a tradição. Isso incluiria: o resgate do latim, maior uso do canto gregoriano, redescoberta do silêncio e uma centralidade maior na adoração eucarística.

Esse movimento não aboliria a missa tridentina, mas faria com que o rito reformado recuperasse seu esplendor perdido em décadas de abusos e improvisações. A beleza, não a banalidade, se tornaria sua marca.

O impacto pastoral seria enorme. Fiéis que hoje buscam a liturgia tradicional pela sua reverência poderiam encontrar no rito reformado um espaço igualmente digno de encontro com Deus. O fosso entre “missa antiga” e “nova missa” se estreitaria.

Assim, Leão XIV poderia deixar como legado uma Igreja onde o rito reformado não fosse apenas permitido, mas amado, não como ruptura, mas como continuidade viva.

3. Integração da Tradição no Presente

Um terceiro caminho seria o da integração: não simplesmente manter dois ritos lado a lado, mas promover uma verdadeira “síntese litúrgica”. Leão XIV poderia incentivar o diálogo entre as duas formas, permitindo que elementos do tridentino fecundassem o Novus Ordo, e vice-versa.

Essa integração poderia acontecer em nível prático: maior uso do ofertório tradicional, recuperação da posição ad orientem, ampliação das orações silenciosas, valorização das leituras em vernáculo acompanhadas do canto gregoriano.

Não seria uma fusão artificial, mas um processo orgânico, em que a tradição ilumina o presente. A liturgia não seria vista como campo de batalha, mas como escola de unidade.

O fruto seria uma geração de católicos que não se sentem divididos entre “velho” e “novo”, mas que respiram uma liturgia enraizada e renovada ao mesmo tempo.

Esse caminho exigiria coragem pastoral e paciência, pois mexeria em sensibilidades dos dois lados. Mas poderia preparar um futuro em que a crise litúrgica fosse finalmente superada.

4. Renovação Missionária a partir da Liturgia

Por fim, Leão XIV poderia ver na liturgia não apenas um debate interno, mas uma arma missionária contra a secularização. A missa, em sua beleza e transcendência, pode ser o grande antídoto contra o vazio espiritual do mundo moderno.

Nesse cenário, a prioridade não seria apenas reconciliar tradicionalistas e progressistas, mas oferecer ao mundo uma liturgia que evangeliza por si mesma. Seja no rito antigo, seja no reformado, o ponto central seria: a liturgia como testemunho da glória de Deus.

Leão XIV poderia impulsionar missões litúrgicas, promovendo celebrações solenes em grandes centros urbanos, redescobrindo a dimensão cósmica do culto e mostrando que a liturgia é a alma da nova evangelização.

Essa ênfase missionária ajudaria a deslocar o debate de dentro para fora. Em vez de brigar sobre rubricas, a Igreja poderia se perguntar: como a liturgia pode conduzir almas ao Céu no século XXI?

Esse seria, talvez, o gesto mais ousado: usar a liturgia como motor de renovação missionária e não como campo de guerra interna.

Considerações Finais

O pontificado do Papa Leão XIV não teria como escapar da questão litúrgica. Herdaria décadas de tensões e feridas abertas. Mas poderia transformar essa crise em oportunidade de unidade, beleza e evangelização.

Se optasse pela reconciliação litúrgica, mostraria que a tradição não pode ser esmagada. Se fortalecesse o rito reformado, traria dignidade ao presente. Se integrasse ambos, faria da liturgia um lugar de síntese e não de conflito. Se apostasse na dimensão missionária, devolveria à liturgia sua vocação universal.

O desafio seria sempre o mesmo: unir sem uniformizar, preservar sem fossilizar, renovar sem romper. Esse é o equilíbrio que a Igreja ainda busca desde 1969.

Leão XIV, com sua experiência pastoral e formação agostiniana, poderia ser o Papa capaz de ouvir os clamores da tradição sem perder a visão de futuro. Como Leão Magno, poderia rugir para defender a fé; como Leão XIII, poderia olhar para o mundo moderno sem trair a herança recebida.

Seja qual for o caminho, uma coisa é certa: a liturgia continuará sendo o coração da Igreja. E o Papa que souber curar essa ferida litúrgica terá não apenas governado, mas renovado espiritualmente todo o Corpo de Cristo.

Por Ir. Alan Lucas de Lima
Carmelita Secular da Antiga Observância