Lex Orandi: os Sacramentos antes e depois da Reforma: Batismo


Esta série tem como objetivo analisar os sacramentos da Igreja à luz do princípio clássico lex orandi, lex credendi: a forma como a Igreja reza molda a forma como ela crê.

Após o Concílio Vaticano II, os rituais sacramentais passaram por reformas profundas, que não se limitaram a adaptações disciplinares ou pastorais, mas atingiram a própria estrutura, a linguagem e a ênfase teológica das celebrações. Tais mudanças tiveram impacto direto na maneira como os fiéis compreendem a fé, o pecado, a graça, a mediação sacerdotal e o sentido do sagrado.

Em cada artigo, examinaremos um sacramento tal como era celebrado no rito romano tradicional e como passou a ser celebrado após a reforma litúrgica, destacando continuidades, rupturas e suas consequências doutrinais e pastorais.

O objetivo não é alimentar polêmicas estéreis, mas oferecer critérios para uma reflexão séria, fiel à tradição viva da Igreja e atenta ao impacto real da liturgia na fé dos fiéis.

I – O Batismo das crianças

Do exorcismo ao acolhimento: o que se perdeu no rito moderno

Introdução

A reforma litúrgica que se seguiu ao Concílio Vaticano II caracterizou-se por dois traços fundamentais. O primeiro foi a profundidade da mudança: não se tratou de simples ajustes ou atualizações pontuais, mas de uma transformação estrutural do culto católico. O segundo foi sua abrangência: a reforma não se limitou à missa, mas atingiu o conjunto da vida sacramental da Igreja.

Embora o debate litúrgico costume concentrar-se na Eucaristia, é nos sacramentos — especialmente no Batismo — que se percebe com clareza como a mudança da linguagem ritual afeta diretamente a transmissão da fé. O Batismo das crianças, porta de entrada da vida cristã, oferece um campo privilegiado para essa análise.

Um rito mais extenso, mas teologicamente enfraquecido

O ritual reformado do Batismo das crianças, promulgado em 1969, apresenta uma estrutura mais longa que a do rito tradicional. Introduz uma liturgia da Palavra, prevê uma homilia e concede amplo espaço à explicação verbal. No entanto, essa ampliação formal não corresponde a um aprofundamento doutrinal equivalente.

Ao contrário, observa-se um enfraquecimento sensível de um elemento central da teologia batismal: a libertação do domínio do pecado original e, por consequência, do poder do demônio. No rito tradicional, o Batismo é apresentado de forma clara como um ato de resgate espiritual, inserido num contexto explícito de combate sobrenatural. No rito reformado, essa dimensão permanece apenas de modo implícito e atenuado.

Os exorcismos propriamente ditos, presentes de forma inequívoca no ritual tradicional, foram suprimidos. Gestos e fórmulas que exprimiam a autoridade da Igreja sobre o mal espiritual foram substituídos por orações genéricas, mais descritivas do que eficazes em sua linguagem.

Da ritualidade sagrada à informalidade celebrativa

O rito tradicional do Batismo, codificado no Rituale Romanum após o Concílio de Trento, caracteriza-se por fórmulas fixas e gestos densamente simbólicos: a exsuflação, os sinais repetidos da cruz, o sal exorcizado, os dois exorcismos explícitos, a imposição da mão, o uso da estola como sinal de autoridade espiritual, o rito do Ephpheta, as unções com o óleo dos catecúmenos e a progressão simbólica das cores litúrgicas.

Nada é acessório. Cada gesto expressa uma realidade espiritual objetiva. O rito não explica: ele age.

No ritual reformado, a celebração inicia-se com um rito de acolhida de forte tonalidade comunitária. O sacerdote saúda os presentes, pode adaptar livremente as fórmulas iniciais e até permitir respostas espontâneas por parte dos pais. As leituras são opcionais, as monições variáveis, as bênçãos da água múltiplas. A estabilidade ritual cede lugar à flexibilidade pastoral.

Gestos outrora obrigatórios tornam-se facultativos. A imposição da mão pode ser substituída por uma unção; os exorcismos são reduzidos a uma oração de súplica; o tom geral da celebração é festivo desde o início, como se a criança já estivesse plenamente integrada à Igreja antes mesmo de receber o sacramento.

O obscurecimento do combate espiritual

É aqui que se encontra o ponto mais sensível da reforma do Batismo. No rito tradicional, o sacerdote age claramente como ministro investido da autoridade de Cristo. Ele fala diretamente ao espírito maligno, ordenando-lhe que se retire. Não se trata de um pedido, mas de um comando pronunciado em nome de Deus.

No rito reformado, essa linguagem desaparece. As chamadas “orações de exorcismo” são, na realidade, súplicas dirigidas a Deus para que Ele liberte a criança do mal. O ministro já não exerce visivelmente a autoridade de Cristo contra o inimigo, mas limita-se a pedir que Deus o faça.

A diferença não é meramente estilística. Ela afeta a forma como a Igreja expressa sacramentalmente sua fé na mediação sacerdotal e na realidade objetiva do combate espiritual. Aquilo que deixa de ser dito na liturgia, com o tempo, deixa de ser crido pelos fiéis.

Consequências teológicas e pastorais

É certo que a validade do sacramento permanece intacta, pois a matéria e a forma essenciais foram conservadas. Contudo, a liturgia não é apenas um instrumento funcional. Ela possui uma função pedagógica e formativa. A lex orandi molda a lex credendi.

Sacerdotes e pastores atentos têm chamado a atenção para a fragilidade da consciência espiritual contemporânea, marcada por uma percepção difusa do pecado, do mal e da necessidade de combate interior. Essa fragilidade não pode ser dissociada da mudança da linguagem litúrgica.

As mesmas razões que levam muitos fiéis a preferirem o rito romano tradicional da missa explicam também o desejo de muitos pais de batizar seus filhos segundo o rito tradicional: maior clareza doutrinal, maior densidade simbólica e maior sentido do sagrado. Não se trata de nostalgia ou estética, mas de fidelidade à fé recebida.

Conclusão

O Batismo não é um simples rito de acolhimento comunitário. Ele é libertação, regeneração e incorporação real a Cristo. Quando a liturgia atenua essa realidade, perde-se algo essencial não apenas no rito, mas na própria transmissão da fé.

A tradição litúrgica da Igreja não é um peso do passado, mas a memória viva de séculos de discernimento espiritual. No Batismo das crianças, essa memória faz toda a diferença. Onde o combate espiritual é obscurecido, a vida cristã tende a perder profundidade. Onde o sagrado é diluído, a fé enfraquece.

Examinar o Batismo “antes e depois” da reforma litúrgica não é rejeitar o presente, mas perguntar, com honestidade, como transmitir hoje — sem reduções — a fé de sempre.

Por Ir. Alan Lucas de Lima, OTC
Carmelita Secular da Antiga Observância